Porque nós somos assim?
Os seres humanos são constituídos a partir da mesma matéria prima, dos mesmos impulsos, energia, necessidades e possibilidades; mas, existe um arranjo individual dessas energias que dá a marca de singularidade ao padrão, a singularidade criativa que faz dessas energias básicas uma obra de arte única, que é a vida de cada um.
Individualmente, trazemos qualidades e defeitos, potencialidades evidentes e outras a serem desenvolvidas, maneira de agir e reagir que vão depender da vontade, desejo, livre arbítrio e nível de consciência que cada um tem de si mesmo.
- Quer dizer então que, além de todo quebra-cabeça bioquímico, da biodinâmica do corpo, a individualidade vai interferir nos processos de ação e reação do corpo físico e emocional?
Isso mesmo.
- É daí que veêm as incompatibilidades?
Em parte, sim.
Na bioquímica, parte das incompatibilidades é gerada pela quebra do equilíbrio dos elementos entre si causando deficiências ou excessos que levam a doenças ou tendências patológicas do corpo físico e emocional; porém outra parte é influenciada pela maneira como cada organismo reage diante de cada situação em particular.
A reação do organismo em cada situação em particular é a sua peculiaridade maior: é o que o diferencia, é o que o faz único.
Por exemplo: é o que faz uma única pessoa de um grupo de dez, que comeram a mesma comida - como um camarão - passar mal, reagir patologicamente à comida, fazer uma crise alérgica, e as outras não.
- O camarão estava estragado?
Não, se estivesse estragado causaria mal a todos que o comeram.
- O que foi que aconteceu então?
A reação foi uma peculiaridade daquele indivíduo, da bioquímica do seu corpo e da não aceitação do seu metabolismo naquele momento a aquele agente externo.
- Essa pessoa vai reagir da mesma forma em outras ocasiões em que comer camarão?
Provavelmente, porque o sistema imunológico guarda uma memória.
Porém, muitas pessoas depois de algum tempo voltam a comer ou beber ou a viver uma situação que lhes causou reações adversas no passado, e desta vez em outras circunstancias não sentem nada.
- Por que? Como se explica isso?
Explica-se pelo fato de que o funcionamento individual não é regido por padrões fixos. Esse funcionamento, peculiar e aparentemente inexplicável de reagir a cada circunstancia de forma diferente, também acontece no nosso psiquismo, ou seja, nas nossas reações emocionais.
- Isso quer dizer que o fato de desejarmos agir e reagir de determinada forma diante de uma circunstancia não é tudo?
Isso mesmo
- Quer dizer que existem outros processos participando das nossas ações e reações emocionais?
Exatamente
- Então nós somos muito complicados?
Complexos eu diria. Vamos tentar entender.
A psiquê humana, o lado emocional, como nós chamamos aqui, tem um sistema auto-regulador para que o emocional se mantenha em equilíbrio da mesma forma que o corpo.
- O corpo reage às situações e circunstâncias porque ele quer ser patológico? Por que ele está criando uma situação difícil?
Não, as reações são sempre tentativas de manter o equilíbrio. Os sinais e sintomas querem nos mostrar o que é preciso fazer ou não fazer para que se mantenha o equilíbrio naquela circunstância.
- Nós sabemos ler e compreender essas mensagens do corpo?
Nem sempre ou, quase nunca.
O sistema auto-regulador emocional também tem componentes que funcionam sem o nosso conhecimento consciente, que são os chamados processos inconscientes.
Esse inconsciente é parte de nós, tem informações nossas que quase nunca sabemos que temos ou como temos ou aonde está dentro de nós, mas ele existe e reage junto com toda a sistemática que acabamos de falar, gerando, compensando ou influenciando as nossas ações e reações.
- O que significa tudo isso?
Significa que o corpo físico gera reações que dependem do momento, das circunstâncias, da memória, do DNA, do ambiente, dos relacionamentos e de um conjunto de outros mecanismos, que não estão aparentes ou evidentes no nosso corpo, que ainda não podem ser provados por exames porque não seguem uma lógica padrão que os explique ( como é o caso dos processos inconscientes) e no entanto o corpo individualmente reage a todos esses fatores.
Dessa forma, o nosso comportamento emocional e psíquico, além de responder aos estímulos de tudo o que já foi citado, ainda sofre a influência do inconsciente que, além de desempenhar um grande papel nos processos individuais, influencia fortemente a maneira de nos relacionarmos com o mundo e com os outros.
- Como?
Cada um de nós tem uma forma particular de pensar, de se expressar, de agir, de demonstrar os sentimentos emoções e desejos, como já vimos anteriormente. No entanto, sempre supomos que a nossa forma seja um padrão e que todas as pessoas são parecidas com a gente, ou seja, seguem mais ou menos o mesmo modo de se relacionar e se expressar.
A maioria de nós acha que a maneira como agimos, idealizamos e pensamos é a forma geral e correta, e assim, esperamos que o outro responda as nossas expectativas. No entanto, quase sempre ficamos espantados e até aterrorizados quando essa regra não se aplica e, obviamente, a regra quase nunca se aplica. Diariamente, nas mais variadas circunstâncias e relacionamentos, descobrimos que a outra pessoa é, na verdade, muito diferente de nós.
Só que de forma geral essas diferenças não são consideradas e questionamos como é que pode o fulano ser tão diferente. Começamos a fazer julgamentos, a achar que essas maneiras diferentes de ser e de pensar são falhas desagradáveis da outra pessoa, são coisas difíceis de tolerar, são defeitos insuportáveis que devem ser condenados.
No entanto, se os relacionamentos são entre outras coisas um caminho em direção à auto descoberta. Eles retratarão fielmente nossas dinâmicas interior.
- O que isso quer dizer?
Quer dizer que vamos nos envolver sempre com pessoas que terão algo a nos ensinar sobre nós mesmos, refletindo para nós, como um espelho, algumas das nossas caracteristicas inconscientes, que não sabemos e/ou não aceitamos mas que fazem parte de nós.
- Quer dizer então que quanto mais vivemos situações diferentes e quanto mais nos relacionamos com pessoas e circunstancias diferentes mais chances temos de saber mais sobre nós mesmos?
Sim.
- Então porque as incompatibilidades nos relacionamentos?
- Elas atrapalham tudo, não é?
Não, na verdade elas ajudam.
- Como ajudam, Dra Márcia?
- Quer dizer que o mau humor do meu marido vai me ajudar em alguma coisa ou a implicância da minha sogra ou a bagunça que meus filhos fazem que me deixa louca? Mas como é que é possível isso tudo ter haver comigo?
- Logo eu que sou uma pessoa tão calma.
Será mesmo que você é assim tão calma?
As incompatibilidades nos ajudam a perceber que em todas as circunstâncias da nossa vida temos participação efetiva, admitamos ou não.
- Por que então atribuímos ao outro o que nos pertence?
Aceitar a dolorosa possibilidade de estar errado é desagradável, pode significar abrir mão da ilusão que fazemos sobre nós mesmos e também porque apenas assim podemos continuar a culpar os outros ou o mundo pela nossa dor, em vez de reconhecer que a nossa realidade é aquela que nós mesmos criamos. Nós estamos implicados ou somos responsáveis por tudo o que fazemos e sentimos quer isso seja claro ou não para nós.
Por exemplo:
A FRUSTRAÇÃO proveniente do não cumprimento do nosso compromisso de vida pode vir a se refletir dentro das nossas relações mais íntimas. Este é um cenário familiar, onde a pessoa culpa e joga toda sua raiva no parceiro, justificando assim sua falta de realização / satisfação na vida.
“Se eu não tivesse conhecido você, hoje eu seria…” A pessoa que faz isso está deixando de encarar a triste verdade de sua falta de coragem de realizar suas coisas e, ao mesmo tempo, correndo o risco de destruir o relacionamento. A trava da realização profissional é a mesma da felicidade pessoal.
A REJEIÇÃO
Se não entramos em contato com nossas próprias emoções, não é possível entrar em contato com as emoções do outro, e esta falta de confiabilidade, troca e contato impedirá a aproximação. Adotamos uma postura fria e de rejeição em relação a todos aqueles que nos tornam vulneráveis, negamos assim todas as nossas necessidades de estímulo e apoio, reassegurando nosso medo perante as pessoas que nos causam dor.
Até tomarmos consciência de que a rejeição é um processo nosso, permaneceremos fechados numa roda viva de sentimentos feridos e de negação emocional.
OS PADRÕES NEGATIVOS
Ao nos envolvermos com alguém, muito de nossas antigas feridas poderá vir à superfície, o que torna a intimidade muito difícil, principalmente porque tendemos a reativar o comportamento infantil da época. Esses padrões negativos de comportamento trabalhados com consciência podem abrir a possibilidade de conseguimos relações mais maduras e mais compensadoras.